" Minha alma chora sem perguntar a razão...ela disse te amo,eu ouço a dor em sua voz. Foi quando vi em seus olhos. Acabou."
Rihanna - Te Amo
Rafael se contemplou mais uma vez no espelho. Os cabelho negros, espetados e cheios de gel caíam um pouco sobre seus olhos ônix sombrios. Nunca fora muito vaidoso, mas achava que estava perfeito para a ocasião que estava por vir, enfiado em sua camisa social preta. Olhou para o relógio e notou que faltava apenas meia hora para dar sete da noite. Tempo suficiente para ir caminhando até a casa de Sabrina.
O que ele sentia por Sabrina era sincero. Ele gosta e sempre gostou do que existe dentro daquela garota perfeita, meiga, inteligente e tantas outras características que Rafael nunca teve coragem de dizer em voz alta para a namorada. Agora sim encontrara o verdadeiro motivo de tanto amor por aquela garota. Em dois anos de namoro, Rafael nunca dissera um “eu te amo” sequer para Sabrina. Então como o namoro dos dois durou tanto tempo? Só Sabrina poderia dizer. Atrás de Rafael Medeiros, o garoto popular que todos conhecem por fora, existe um retardado que não consegue dizer pra maior gata da parada que a ama! E ela o compreende perfeitamente... Sempre.
Este seria o dia mais importante da vida deles. O primeiro passo para se construir o futuro dos sonhos de ambos. Sabrina que marcara o jantar. Na verdade ela sempre marcou todos os encontros deles. Por isso ela é a namorada perfeita. Suporta a quase ausência de elogios do namorado, o jeito frio dele e como ele despreza o mundo e a pessoas que não o conhecem direito. Mas ELA o conhece como ninguém. Mais que seu irmão - que sugeriu que Rafael fosse internado por não conseguir falar com uma garota - e mais que seus pais - que quase aceitaram a sugestão de Rodrigo. Seria HOJE, nesta noite. Ele daria um anel para Sabrina. Rafael apanhou a caixinha de veludo preto onde estava guardado o tão precioso anel. A jóia custara um horror, mas Sabrina merecia. Porque depois de dois anos de namoro chegara a hora de dizer o primeiro “eu te amo” da vida dele. Para a garota certa, no momento certo.
Desceu as escadas. Sua mãe, Juliana, estava na cozinha esperando o filho descer do quarto. O seu pai Rodolfo, na sala de estar assistindo um noticiário na TV com Rodrigo.
- Já vai meu amor? – perguntou sua mãe.
- Já – respondeu Rafael, indiferente e com pressa.
- E aí, babaca? Já aprendeu a falar com as mulheres? – perguntou Rodrigo, recebendo olhares reprovadores de sua mãe. – Pronto para usar seu charme irresistível?
- Vai te catar! – respondeu Rafael de mal humor. Rodrigo estava sempre disposto a chateá-lo, só porque era mais velho, tinha um carrão na garagem, estudava engenharia mecânica numa das melhores faculdades de São Paulo e estava noivo de uma mulher que a família considerava “direita e decente”.
- Desculpa maninho! – Rodrigo não parava de rir desdenhosamente do irmão caçula.
- Estou tão orgulhosa de você, meu filho!
- Obrigado, mãe...
- Que coisa melosa... – disse Rodrigo – parece cena de filme... Vê se não estraga tudo seu palerma... – completou ele aguardando a reação de Rafael, que respirou fundo. Estava feliz demais para estragar sua noite por causa de Rodrigo. Por isso tentou dizer a coisa mais sutil que lhe veio à cabeça:
- Vá para o inferno – e saiu, sem ouvir o desejo de boa sorte de seu pai.
Rafael era o típico garoto popular da escola. Ele, Sabrina e os demais amigos estavam prestes a iniciar o segundo ano do ensino médio na mesma escola, na mesma sala. Todos na escola sabiam da relação entre Rafael e Sabrina, afinal ele era o capitão do time de futebol da escola e ele era uma das animadoras de torcida. Aos olhos de Rafael ela era a garota mais linda do mundo. Era alta, tinha um corpo esguio, cabelos castanho-escuros na altura dos ombros e olhos também castanhos. E o sorriso mais encantador da face da Terra.
Chegou à casa de Sabrina mais rápido do que esperava. No caminho viera contemplando as estrelas e achava que isso lhe renderia uma caminhada mais lenta. Mas o amor que fluía em dentro dele era tão grande que seus pés o levaram ao quarteirão ao lado de sua casa ligeiramente.
Subiu o pequeno conjunto de escadas que levava à porta da casa de sua amada. Respirou fundo e tocou a campainha. “ Tudo vai dar certo...”, pensou ele. Afinal, ele era boa pinta, o bonzão da escola. Qualquer garota daria tudo para ser sua namorada.
Porém, assim que Sabrina abriu a porta ele notou que algo estava errado. Ela poderia não saber, mas Rafael conhecia perfeitamente como Sabrina gostava de se vestir e de se maquiar (o problema é que ele quase nunca comentava como ela estava bonita), e ele tinha certeza de que ela nunca usaria um short curto com um moletom para sair pra jantar. Ao erguer seu olhar de confusão para o rosto da namorada não notou maquiagem alguma e sim manchas vermelhas naqueles lindos olhos castanhos. Sabrina estivera... chorando?
- O que aconteceu? – ele conseguiu perguntar
- Entre – convidou ela com a voz embargada. Ela REALMENTE estivera chorando.
- Por que você ainda não está pronta? – perguntou Rafael sem se conter, assim que passou pela porta
- Senta aí – disse ela sem encará-lo, indicando o sofá. O que estava acontecendo?
Rafael olhou rapidamente em volta e viu que não havia mesa de jantar alguma. Algo estava errado.
- Olha, eu vou direto ao ponto... Do jeito que você gosta... – disse Sabrina decididamente – Não dá mais, Rafa. Acabou.
“O que?”
- Ahn? – foi o que ele conseguiu dizer tamanha sua estupefação.
- Eu quero terminar. – disse ela com convicção, apesar dos olhos lacrimejantes.
Rafael tinha certeza de que não estava ouvindo direito. Ela queria O QUE ?
- Me desculpe Rafael... Mesmo. Eu pensei muito e... Percebi que nós não temos futuro.
Futuro. A palavra que rondara sua mente durante todo aquele dia. “diga que ela está enganada” – pensou ele, mas nada conseguiu dizer.
- Por quê? – perguntou ele sem conseguir expressar a verdadeira tristeza que sentia. Ele era mesmo um demente.
- Porque eu não aguento mais! – disse Sabrina com segurança, e com uma delicadeza de dar inveja a qualquer um. Ela era perfeita até para terminar um namoro... – E tem mais...
- Mais? – repetiu ele se sentindo idiota. O dono da verdade, o senhor popular, demonstrando novamente a fraqueza que só aquela garota conhecia. Mas este era pra ser um momento de alegria...
- Sim... Eu... Conheci alguém novo. – agora foi demais pra ele. “Peça pra ela dizer quem é o desgraçado e você vai matá-lo!” – pensou Rafael novamente.
- Quem é ele? – perguntou ele com indiferença. “Não era pra ser indiferente! Droga!”
Um silêncio constrangedor se instalou entre eles. Talvez se ele tivesse sido mais amoroso com as pessoas... Talvez se ele tivesse dito “eu te amo antes”... Talvez se ele pudesse ser como Rodrigo. Então, Rafael Medeiros não era tão perfeito assim...
- Não posso dizer – disse Sabrina– é coisa minha Rafa.
- Vou arrebentar a cara dele ! – conseguiu dizer, enfim.
- Você não vai fazer nada! Ele me ama! – disse ela perdendo totalmente a compostura e assumindo um comportamento que Rafael nunca vira – Ele não é como você! Você nunca me disse que me ama e raramente me elogia! Agüentei isso por muito tempo Rafael, mas até minha paciência acaba! Eu achei que pudesse mudar você, mas estava enganada! Você não confia em mim!– ela terminou, debulhando-se em lágrimas
Foi , de longe, a pior dor que já sentira. Ela não o amava mais. Ela estava cheia dele. Ele tomara um fora... “ Inaceitável!” pensou ele.
- Não vai dizer nada? – perguntou Sabrina.
- Não – respondeu ele indiferente, quase como se estivesse em transe.
- Ótimo!- disse ela sarcasticamente - Então, por favor... Vá embora. – abriu a porta.
Rafael se levantou mecanicamente e parou no portal de entrada. Encarou Sabrina nos olhos pela última vez. Rafael estava arrasado por dentro, mas por fora mantinha a mesma expressão indiferente de sempre. Inaceitável, inaceitável... Ele tinha que fazer alguma coisa. Retirou do bolso a caixinha preta de veludo e abriu-a na frente da moça, dessa vez com indiferença proposital e retirou o delicado anel de prata que havia escolhido com tanto carinho para Sabrina. Em seguida, atirou a caixinha com mais violência do que gostaria no sofá em que poucos segundos atrás estivera sentado.
- Me desculpe se não sou bom o suficiente pra você – disse erguendo a aliança na altura dos olhos de ambos. – Eu vou mudar Sabrina. Você vai ver. – Prometeu ele, atando a jóia a uma corrente que levava no pescoço.
Seu instinto lhe dizia que as mágoas daquela noite não haviam acabado. Foi por isso que, depois de descer as escadas da casa da ex-namorada, se escondeu atrás de uma moita da casa em frente à de Sabrina, e pôs-se a aguardar. Em menos de quinze minutos viu que estava certo. Não sabia se ficava feliz ou triste por ter acertado que iria se decepcionar mais. O canalha que Sabrina conhecera surgiu na esquina e pôs-se a subir os degraus que Rafael acabara de descer. A intuição de Rafael lhe dizia que era ele o cachorro. Tinha de ser.
Rafael viu ainda que o desgraçado trazia nas mãos algo que parecia um buquê de flores. Então por que Sabrina o trocara por outro? Simples... “Ele me ama” – dissera ela. A diferença era essa. Tão absorto em pensamentos, Rafael não viu Sabrina abrindo a porta e quando levantou os olhos para a casa da qual havia acabado de sair, não viu mais ninguém.
Nunca se sentira assim em toda a vida. Era certo que não era o melhor namorado do mundo simplesmente por ser bonito. Palavras de amor são muito importantes e foi comprando aquele anel que Rafael enxergou isso. Estava disposto a mudar e ia dizer isso para Sabrina se ela não tivesse lhe dado um fora. Um fora inaceitável. Ia dizer que a amava pela primeira vez e da melhor forma possível se ela não lhe tivesse chutado...
Mas a promessa que ele fizera era pra valer. Ele ia mudar especialmente para Sabrina. E independente de quem for o novo cara, Sabrina o largará assim que ver o novo Rafael. Apertando novamente o anel, Rafael se levantou da moita e decidiu que era hora de ir embora. Chegaria em casa como um derrotado e Rodrigo o chamaria de corno palerma e outras delicadezas que só seu irmão mais velho saberia dizer. Mas isso não importava. Sua concepção de vida mudara. Seu objetivo passou a ser “mudar para Sabrina” e ele chegaria ao sucesso.
- AI! – gritou Rafael ao se levantar da moita. Ao olhar para seus braços, uma surpresa: estavam cobertos por protuberâncias vermelhas. E pinicando e coçando sem parar. Era uma tortura. Só então reparou melhor na moita: urtiga. Justamente a única coisa a que Rafael tem alergia. Ótimo! Nada poderia ser melhor numa noite de desilusões que urticária.
Chegou em casa cheio de calombos pelo corpo. Ao abrir a porta de casa suspirou aliviado por não ter nenhuma comitiva de recepção. O dia seguinte era segunda-feira e a urticária apareceu em boa hora para servir como desculpa para o jovem faltar aula. E daí que estava começando o segundo ano do ensino médio? Rick ou Daniel lhe passaria a matéria no dia seguinte.
Tirou a camisa e contemplou seu corpo definido repleto de horrendas manchas vermelhas. Sentiu nojo de si mesmo. Não pela urticária, mas por não ser capaz de dizer o que sente para as pessoas. Ele era mesmo um grande idiota. Um demente, com diria Rodrigo. Anormal, imbecil e demente. Todos no colégio o vangloriavam pela sua beleza e outras coisas para as quais Rafael não dava a mínima agora. Porque perdeu o que havia de mais importante pra ele: Sabrina. A ficha finalmente caiu.
Exausto, Rafael se atirou na cama. Percebeu instantaneamente que não conseguiria dormir. Pôs-se a contemplar o teto de seu quarto. A cada segundo que se passava sua determinação aumentava. Que no dia seguinte viessem Rodrigo, urticária e todas as forças armadas. Ele cumpriria sua promessa. Por Sabrina.
FIM DO CAPÍTULO II.
sábado, 24 de outubro de 2009
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