sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CAP. IV - Insônia

"Meus olhos podem ver você mas eles não enxergam
Perdido no relógio um segundo que não quer passar
O travesseiro acorda e ri enquanto eu conto os dedos
E os cabelos que arranquei de tanto desejar."
Insônia - Capital Inicial


A aula começaria apenas às sete horas. Olhou no relógio no visor do celular: cinco e meia da manhã. Fez as contas. Já faziam três horas que estava acordada.
Gabriela ligou a televisão, o volume no mínimo para não acordar a mãe. Sentia-se abatida, mas não conseguia dormir. Após a briga que seus pais tiveram na noite anterior, ficara perturbada. Dormira por algum tempo, mas a insônia, a maldita traiçoeira, se arrastava até a sua cama, lhe fazia dar voltas sem sentido em torno do quarto.
Desde que a crise entre os pais começara, as noites viravam longos dias para Gabi, que achava que essa tormenta nunca acabaria. E agora que retornaria as aulas, a maldita insônia a atrapalharia nos estudos. Sacudiu a cabeça, tentando afastar os maus pensamentos, decidiu subir e trocar de roupa para ir à escola.
A mãe, Mercedes, agora dormia profundamente . O pai, Demétrio, só Deus sabia onde passara a noite. Dormindo, o rosto de sua mãe se encontrava totalmente em paz, como se não existissem brigas e nem conflitos. Pena que Gabi não podia fazer o mesmo.
Olhou-se no espelho, os olhos azuis estavam sonolentos, emoldurados por profundas olheiras. O cabelo ruivo, um pouco encaracolado, estava todo espatifado. Se achou engraçada. Seus lábios esboçaram um sorriso que iluminou o rosto sardento. Sorrir. Isso já era suficiente para esquecer os problemas familiares e os conflitos que ainda estavam por vir.
FIM DO CAPÍTULO IV

terça-feira, 27 de outubro de 2009

CAP. III - Despedidas

"Depois de tudo que você me fez passar
Você imaginou que eu o menosprezaria
Mas no fim, eu quero lhe agradecer
Porque você me fez muito mais forte."
Fighter - Christina Aguilera


O dia seguinte amanheceu ensolarado e quente, típico do mês de Janeiro. Ágata sentia-se ensolarada como o clima ao acordar. Resolvera deixar as mágoas secarem ao sol daquela linda manhã de verão. Chorara muito, mas agora já não lhe restava uma única lágrima. A vergonha,a tristeza, a raiva, tudo isso se fora como nuvens passageiras, deixando em seu lugar uma vontade de viver a vida e encarar o mundo como jamais fizera, de uma forma mais otimista, mais corajosa.


"Bem, eu achei que conhecia você
Pensando que você é verdadeiro
Eu acho que eu, eu não podia confiar
Acabou o tempo para suas baboseiras
Pois eu já tive o bastante
Você estava ao meu lado
Sempre pronto para o que viesse
Mas a sua jornada da felicidade pegou fogo
Pois sua ganância me vendeu na vergonha
Depois de todos os roubos e trapaças
Você deve achar que eu guardo ressentimentos de você
Mas, oh não, você está enganado
Pois se não fosse por tudo que você tentou fazer
Eu não saberia o quanto sou capaz de aguentar
E por isso quero dizer obrigada"


No fim das contas, tinha mais era que agradecer a Guilherme. Nunca soubera o quanto era forte, o quanto podia suportar... Mas agora era diferente. Ela podia sentir, após aquela noite de lágrimas, a força dentro de si, como jamais sentira antes.

"Pois isto me faz muito mais forte
Me faz trabalhar mais arduamente
Me faz muito mais sábia
Então obrigada por fazer de mim uma lutadora
Me fez aprender mais rápido
Fez minha pele um pouco mais espessa
Me faz muito mais esperta
Então obrigada por fazer de mim uma lutadora"


* * * * * * *

O almoço na casa de tia Rita foi bom na medida do possível. é claro que Rita xingou e amaldiçoou Guilherme até sua quinta geração assim que soube da desfeita que este fizera à sua sobrinha. Ágata não pode deixar de dar boas gargalhadas com as exclamações da tia.
- Cachorro, galinha! Esse é mesmo um safado que não merece o feijão que come! Excomungado duma figa...
- Calma, Rita. -interrompia Anésio, que considerava a hora da refeição sagrada e não gostava de discussões à mesa.
Rita resmungou por algum tempo, mas logo calou-se. Despediram-se todos ao fim da tarde, menos Anésio que despedira-se após o almoço e logo fora trabalhar.
- Adeus, irmãzinha. Que o Nosso Senhor do Bonfim te proteja, viste?- dizia Rita maternalmente à Vera Lúcia - E você, mocinha, se comporte bem e estude bastante, viu?
- Pode deixar tia - disse Ágata disciplentemente - Adeus, Rosinha. Venha me visitar qualquer dia, tá?
- Vou sentir saudades... - disse a menininha de cinco anos choramingando e abraçando a prima.
Ágata não pôde deixar de chorar também, mas sabia que, de alguma forma, sua vida estava prestes a mudar drasticamente assim que partisse pela manhã para o desconhecido.
A garotinha Rosa ficou à porta, soluçando, até que a imagem da tia e da prima se perdesse no horizonte.

sábado, 24 de outubro de 2009

CAP. II - Inaceitável

" Minha alma chora sem perguntar a razão...ela disse te amo,eu ouço a dor em sua voz. Foi quando vi em seus olhos. Acabou."
Rihanna - Te Amo


Rafael se contemplou mais uma vez no espelho. Os cabelho negros, espetados e cheios de gel caíam um pouco sobre seus olhos ônix sombrios. Nunca fora muito vaidoso, mas achava que estava perfeito para a ocasião que estava por vir, enfiado em sua camisa social preta. Olhou para o relógio e notou que faltava apenas meia hora para dar sete da noite. Tempo suficiente para ir caminhando até a casa de Sabrina.
O que ele sentia por Sabrina era sincero. Ele gosta e sempre gostou do que existe dentro daquela garota perfeita, meiga, inteligente e tantas outras características que Rafael nunca teve coragem de dizer em voz alta para a namorada. Agora sim encontrara o verdadeiro motivo de tanto amor por aquela garota. Em dois anos de namoro, Rafael nunca dissera um “eu te amo” sequer para Sabrina. Então como o namoro dos dois durou tanto tempo? Só Sabrina poderia dizer. Atrás de Rafael Medeiros, o garoto popular que todos conhecem por fora, existe um retardado que não consegue dizer pra maior gata da parada que a ama! E ela o compreende perfeitamente... Sempre.
Este seria o dia mais importante da vida deles. O primeiro passo para se construir o futuro dos sonhos de ambos. Sabrina que marcara o jantar. Na verdade ela sempre marcou todos os encontros deles. Por isso ela é a namorada perfeita. Suporta a quase ausência de elogios do namorado, o jeito frio dele e como ele despreza o mundo e a pessoas que não o conhecem direito. Mas ELA o conhece como ninguém. Mais que seu irmão - que sugeriu que Rafael fosse internado por não conseguir falar com uma garota - e mais que seus pais - que quase aceitaram a sugestão de Rodrigo. Seria HOJE, nesta noite. Ele daria um anel para Sabrina. Rafael apanhou a caixinha de veludo preto onde estava guardado o tão precioso anel. A jóia custara um horror, mas Sabrina merecia. Porque depois de dois anos de namoro chegara a hora de dizer o primeiro “eu te amo” da vida dele. Para a garota certa, no momento certo.
Desceu as escadas. Sua mãe, Juliana, estava na cozinha esperando o filho descer do quarto. O seu pai Rodolfo, na sala de estar assistindo um noticiário na TV com Rodrigo.
- Já vai meu amor? – perguntou sua mãe.
- Já – respondeu Rafael, indiferente e com pressa.
- E aí, babaca? Já aprendeu a falar com as mulheres? – perguntou Rodrigo, recebendo olhares reprovadores de sua mãe. – Pronto para usar seu charme irresistível?
- Vai te catar! – respondeu Rafael de mal humor. Rodrigo estava sempre disposto a chateá-lo, só porque era mais velho, tinha um carrão na garagem, estudava engenharia mecânica numa das melhores faculdades de São Paulo e estava noivo de uma mulher que a família considerava “direita e decente”.
- Desculpa maninho! – Rodrigo não parava de rir desdenhosamente do irmão caçula.
- Estou tão orgulhosa de você, meu filho!
- Obrigado, mãe...
- Que coisa melosa... – disse Rodrigo – parece cena de filme... Vê se não estraga tudo seu palerma... – completou ele aguardando a reação de Rafael, que respirou fundo. Estava feliz demais para estragar sua noite por causa de Rodrigo. Por isso tentou dizer a coisa mais sutil que lhe veio à cabeça:
- Vá para o inferno – e saiu, sem ouvir o desejo de boa sorte de seu pai.
Rafael era o típico garoto popular da escola. Ele, Sabrina e os demais amigos estavam prestes a iniciar o segundo ano do ensino médio na mesma escola, na mesma sala. Todos na escola sabiam da relação entre Rafael e Sabrina, afinal ele era o capitão do time de futebol da escola e ele era uma das animadoras de torcida. Aos olhos de Rafael ela era a garota mais linda do mundo. Era alta, tinha um corpo esguio, cabelos castanho-escuros na altura dos ombros e olhos também castanhos. E o sorriso mais encantador da face da Terra.
Chegou à casa de Sabrina mais rápido do que esperava. No caminho viera contemplando as estrelas e achava que isso lhe renderia uma caminhada mais lenta. Mas o amor que fluía em dentro dele era tão grande que seus pés o levaram ao quarteirão ao lado de sua casa ligeiramente.
Subiu o pequeno conjunto de escadas que levava à porta da casa de sua amada. Respirou fundo e tocou a campainha. “ Tudo vai dar certo...”, pensou ele. Afinal, ele era boa pinta, o bonzão da escola. Qualquer garota daria tudo para ser sua namorada.
Porém, assim que Sabrina abriu a porta ele notou que algo estava errado. Ela poderia não saber, mas Rafael conhecia perfeitamente como Sabrina gostava de se vestir e de se maquiar (o problema é que ele quase nunca comentava como ela estava bonita), e ele tinha certeza de que ela nunca usaria um short curto com um moletom para sair pra jantar. Ao erguer seu olhar de confusão para o rosto da namorada não notou maquiagem alguma e sim manchas vermelhas naqueles lindos olhos castanhos. Sabrina estivera... chorando?
- O que aconteceu? – ele conseguiu perguntar
- Entre – convidou ela com a voz embargada. Ela REALMENTE estivera chorando.
- Por que você ainda não está pronta? – perguntou Rafael sem se conter, assim que passou pela porta
- Senta aí – disse ela sem encará-lo, indicando o sofá. O que estava acontecendo?
Rafael olhou rapidamente em volta e viu que não havia mesa de jantar alguma. Algo estava errado.
- Olha, eu vou direto ao ponto... Do jeito que você gosta... – disse Sabrina decididamente – Não dá mais, Rafa. Acabou.
“O que?”
- Ahn? – foi o que ele conseguiu dizer tamanha sua estupefação.
- Eu quero terminar. – disse ela com convicção, apesar dos olhos lacrimejantes.
Rafael tinha certeza de que não estava ouvindo direito. Ela queria O QUE ?
- Me desculpe Rafael... Mesmo. Eu pensei muito e... Percebi que nós não temos futuro.
Futuro. A palavra que rondara sua mente durante todo aquele dia. “diga que ela está enganada” – pensou ele, mas nada conseguiu dizer.
- Por quê? – perguntou ele sem conseguir expressar a verdadeira tristeza que sentia. Ele era mesmo um demente.
- Porque eu não aguento mais! – disse Sabrina com segurança, e com uma delicadeza de dar inveja a qualquer um. Ela era perfeita até para terminar um namoro... – E tem mais...
- Mais? – repetiu ele se sentindo idiota. O dono da verdade, o senhor popular, demonstrando novamente a fraqueza que só aquela garota conhecia. Mas este era pra ser um momento de alegria...
- Sim... Eu... Conheci alguém novo. – agora foi demais pra ele. “Peça pra ela dizer quem é o desgraçado e você vai matá-lo!” – pensou Rafael novamente.
- Quem é ele? – perguntou ele com indiferença. “Não era pra ser indiferente! Droga!”
Um silêncio constrangedor se instalou entre eles. Talvez se ele tivesse sido mais amoroso com as pessoas... Talvez se ele tivesse dito “eu te amo antes”... Talvez se ele pudesse ser como Rodrigo. Então, Rafael Medeiros não era tão perfeito assim...
- Não posso dizer – disse Sabrina– é coisa minha Rafa.
- Vou arrebentar a cara dele ! – conseguiu dizer, enfim.
- Você não vai fazer nada! Ele me ama! – disse ela perdendo totalmente a compostura e assumindo um comportamento que Rafael nunca vira – Ele não é como você! Você nunca me disse que me ama e raramente me elogia! Agüentei isso por muito tempo Rafael, mas até minha paciência acaba! Eu achei que pudesse mudar você, mas estava enganada! Você não confia em mim!– ela terminou, debulhando-se em lágrimas
Foi , de longe, a pior dor que já sentira. Ela não o amava mais. Ela estava cheia dele. Ele tomara um fora... “ Inaceitável!” pensou ele.
- Não vai dizer nada? – perguntou Sabrina.
- Não – respondeu ele indiferente, quase como se estivesse em transe.
- Ótimo!- disse ela sarcasticamente - Então, por favor... Vá embora. – abriu a porta.
Rafael se levantou mecanicamente e parou no portal de entrada. Encarou Sabrina nos olhos pela última vez. Rafael estava arrasado por dentro, mas por fora mantinha a mesma expressão indiferente de sempre. Inaceitável, inaceitável... Ele tinha que fazer alguma coisa. Retirou do bolso a caixinha preta de veludo e abriu-a na frente da moça, dessa vez com indiferença proposital e retirou o delicado anel de prata que havia escolhido com tanto carinho para Sabrina. Em seguida, atirou a caixinha com mais violência do que gostaria no sofá em que poucos segundos atrás estivera sentado.
- Me desculpe se não sou bom o suficiente pra você – disse erguendo a aliança na altura dos olhos de ambos. – Eu vou mudar Sabrina. Você vai ver. – Prometeu ele, atando a jóia a uma corrente que levava no pescoço.
Seu instinto lhe dizia que as mágoas daquela noite não haviam acabado. Foi por isso que, depois de descer as escadas da casa da ex-namorada, se escondeu atrás de uma moita da casa em frente à de Sabrina, e pôs-se a aguardar. Em menos de quinze minutos viu que estava certo. Não sabia se ficava feliz ou triste por ter acertado que iria se decepcionar mais. O canalha que Sabrina conhecera surgiu na esquina e pôs-se a subir os degraus que Rafael acabara de descer. A intuição de Rafael lhe dizia que era ele o cachorro. Tinha de ser.
Rafael viu ainda que o desgraçado trazia nas mãos algo que parecia um buquê de flores. Então por que Sabrina o trocara por outro? Simples... “Ele me ama” – dissera ela. A diferença era essa. Tão absorto em pensamentos, Rafael não viu Sabrina abrindo a porta e quando levantou os olhos para a casa da qual havia acabado de sair, não viu mais ninguém.
Nunca se sentira assim em toda a vida. Era certo que não era o melhor namorado do mundo simplesmente por ser bonito. Palavras de amor são muito importantes e foi comprando aquele anel que Rafael enxergou isso. Estava disposto a mudar e ia dizer isso para Sabrina se ela não tivesse lhe dado um fora. Um fora inaceitável. Ia dizer que a amava pela primeira vez e da melhor forma possível se ela não lhe tivesse chutado...
Mas a promessa que ele fizera era pra valer. Ele ia mudar especialmente para Sabrina. E independente de quem for o novo cara, Sabrina o largará assim que ver o novo Rafael. Apertando novamente o anel, Rafael se levantou da moita e decidiu que era hora de ir embora. Chegaria em casa como um derrotado e Rodrigo o chamaria de corno palerma e outras delicadezas que só seu irmão mais velho saberia dizer. Mas isso não importava. Sua concepção de vida mudara. Seu objetivo passou a ser “mudar para Sabrina” e ele chegaria ao sucesso.
- AI! – gritou Rafael ao se levantar da moita. Ao olhar para seus braços, uma surpresa: estavam cobertos por protuberâncias vermelhas. E pinicando e coçando sem parar. Era uma tortura. Só então reparou melhor na moita: urtiga. Justamente a única coisa a que Rafael tem alergia. Ótimo! Nada poderia ser melhor numa noite de desilusões que urticária.

Chegou em casa cheio de calombos pelo corpo. Ao abrir a porta de casa suspirou aliviado por não ter nenhuma comitiva de recepção. O dia seguinte era segunda-feira e a urticária apareceu em boa hora para servir como desculpa para o jovem faltar aula. E daí que estava começando o segundo ano do ensino médio? Rick ou Daniel lhe passaria a matéria no dia seguinte.
Tirou a camisa e contemplou seu corpo definido repleto de horrendas manchas vermelhas. Sentiu nojo de si mesmo. Não pela urticária, mas por não ser capaz de dizer o que sente para as pessoas. Ele era mesmo um grande idiota. Um demente, com diria Rodrigo. Anormal, imbecil e demente. Todos no colégio o vangloriavam pela sua beleza e outras coisas para as quais Rafael não dava a mínima agora. Porque perdeu o que havia de mais importante pra ele: Sabrina. A ficha finalmente caiu.
Exausto, Rafael se atirou na cama. Percebeu instantaneamente que não conseguiria dormir. Pôs-se a contemplar o teto de seu quarto. A cada segundo que se passava sua determinação aumentava. Que no dia seguinte viessem Rodrigo, urticária e todas as forças armadas. Ele cumpriria sua promessa. Por Sabrina.
FIM DO CAPÍTULO II.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CAP. I - Realidade

“Nas palavras de um coração partido, são só emoções, tomando conta de mim... “
Destiny's Child - Emotions

Era aí que ela se enganava. Esse era só o começo.
Estava encolhida num canto da sala. Não sabia como chegara ali nem onde deveria estar. A raiva e a vergonha a entorpeciam. O telefone tocou e continuou tocando. Ela sequer escutou.
- Como pôde... Como pôde fazer isso comigo? - pensou.
Não sabia explicar. O telefone tocou de novo e desta vez ela escutou. Mas não atendeu. Não queria falar com ninguém, não queria ver ninguém e não queria ser vista por ninguém. Se sentia envergonhada, humilhada e feita de trouxa. E, principalmente, Ágata sentia uma raiva crescer dentro de si, uma vontade inexplicável de esbofetear Guilherme e quem quer que fosse a vadia que ele estava agarrando e, plena praça pública. Vadia, essa, de cabelos negros e ondulados, exatamente como em seu sonho... Não, desta vez era realidade. Realidade dura e cruel.
- Infeliz...- repetia em sussurros para ninguém ouvir. Bobagem. Não havia ninguém lá. Havia apenas o telefone tocando e tocando, mas ela estava perdida nas lembranças da baixaria polêmica daquela tarde.
Sua tia Rita de Cássia a chamara para ir a shopping da cidade vizinha. Ágata estava a caminho do ponto onde combinaram de encontrarem-se quando se deu o flagrante.
Ficara simplesmente atônita. A semelhança entre a cena e o seu sonho pertubador era surreal. Quando Guilherme percebeu que a garota o olhava, chocada com o que via, ficou desconcertado. Pediu licença a morena e foi falar com Ágata.
- Ágata... -começou, mas foi interrompido.
- O que vai dizer? Pedir desculpas de coração? Não me faça rir. - disse Ágata em tom desafiador.
- Olha, eu posso explicar... Eu fui um idiota...
- Não, Guilherme, a idiota da hisória aqui sou eu! Eu, que confiei cegamente em você, enquanto você ria da minha cara e se divertia com a primeira biscate que apareceu na sua frente!- lágrimas de raiva brotavam e ameaçavam sair de seus olhos, mas Ágat mantia-se firme, enquanto alguns enxeridos se aproximavam para assistir de camarote ao "showzinho" do casal.
-Como você acha que eu me sinto quando te vejo fazer isso? Com todo mundo me chamando de chifruda pelas costas? ME DIZ!- a essa altura Ágata já estava fazendo um escândalo, gritava feito uma louca. Lágrimas riscavam sua face, mas ela as enxugava fervendo de ódio.
- Escuta, me perdoa, eu posso melhorar, me dá mais uma chance. - pediu ele, visivelmente incomodado com a atençao que estavam chamando.
- Quer saber? Que se dane! Já estou farta de tudo isso. Quanto mais cedo eu for embora, melhor.
- Embora? Como assim? - perguntou Guilherme, um pouco surpreso. Mas Ágata não queria mais saber de conversa, já estava se retirando. - Espera! Me explica direito essa história!
- Ah, vai te catar, desgraçado. - fez um gesto grosseiro com as mãos e saiu desnorteada rua afora. Rodou durante alguns minutos (ou seriam horas?)até achar o caminho de casa, não sabia como.
O telefone tocou mais uma vez. Ela o xingou antes de atendê-lo. Era tia Rita, querendo saber por que não fora ao shopping. Disse que estava se sentindo mal (o que também não era uma mentira), pediu mil desculpas e falou que com certeza iria visitá-la no dia seguinte, antes que partisse.

Mais tarde, Vera Lúcia chegou do serviço ao fim do expediente e encontrou-a sentada no sofá assistindo qualquer coisa na TV.
- Olá. – cumprimentou Vera.
- Hum... – respondeu Ágata sem ânimo.
- O que houve? – perguntou a mãe da menina, já pressentindo algo errado.
- Ele me chifrou. – respondeu a garota mudando o canal da televisão – E não tem nada que preste na TV.
Vera Lúcia deu um longo suspiro. Era isso o que temia: ver a filha sofrer por um rapaz que não sabia lhe dar valor. Foi exatamente o que acontecera com Vera na adolescência. Envolvera-se com um homem insensível que não soube amá-la e o resultado fora este. Era mãe solteira e sustentava a casa e a filha de quinze anos sozinha. Agora, graças ao seu novo chefe, conseguira uma promoção no emprego, trabalharia para uma filial da empresa na capital, e moraria num lugar decente para educar sua filha.
- Escute quando eu te digo: não vale a pena. - disse Vera, mais para si mesma que para a filha – Se ficar se culpando, você só vai se machucar mais no final.
Ágata sorriu e a abraçou ternamente, dando-lhe um beijo na testa. Apesar de Vara nunca ter lhe contado sobre seu pai, a garota sabia que o que a mãe sofrera fora incomparavelmente pior que a situação que estava vivendo agora.
- Tia Rita quer que a gente almoce na casa dela amanhã- desconversou Ágata – Vai ser uma despedida, já que nós pegamos a estrada no domingo bem cedo.
Vera fez que sim com a cabeça. Ágata foi tomar um banho e se deitar. Amanhã seria um longo dia.
FIM DO CAPÍTULO I

terça-feira, 20 de outubro de 2009

INTRODUÇÃO : Pesadelo

Acordou assustada no meio da noite. Em seu pequeno quarto, tudo mergulhava em paz, tranqüilidade e na mais profunda escuridão. Tateou à procura de seu celular na mesa de cabeceira .
Três e meia da manhã.
Sentou-se. Seu corpo estava todo suado, o coração tamborilava freneticamente tocando um ritmo desconhecido. Tentava negar, mas não podia: acordara por causa do sonho. Para Ágata, era um pesadelo. E já era a terceira vez naquela semana. Isso era um mau sinal.
Lembrou-se nitidamente do sonho, o rosto dele, os olhos verdes e os cabelos desgrenhados, sentado desajeitadamente no banquinho da praça onde tinham se beijado pela primeira vez. Do nada aparece ela, a garota que nunca havia visto, mas que sempre protagonizava o maldito sonho, sacudindo os cachos negros e compridos. Ela sempre se sentava ao lado dele e o beijava... E ele retribuía impetuosamente, as mãos na cintura da morena... Não! Não estava certo! Guilherme pertencia somente a ela e a mais ninguém! Era apenas um sonho...
E também seu pior pesadelo.
- Só pode ser o estresse, Ágata. Você ainda fica louca... – repetia uma, duas, dez vezes, até estar convicta disso. Apesar de estar em plenas férias escolares, ainda sentia o peso do estresse devido à mudança, que ocorreria em breve. Deixaria a cidade natal, no interior, para ir morar com sua mãe, Vera Lúcia, na capital, São Paulo. Um aperto invadiu seu coração: ainda não avisara Guilherme sobre a mudança. Ele não era seu namorado oficial, mas tinha o direito de saber.
Todavia, quando Ágata tentava contar a nova ao “quase-namorado”, as palavras se perdiam no caminho até a sua boca. Suspirou. Vencida pelo cansaço resolveu tentar dormir um pouco. Sua cabeça latejava e zunia, talvez um pouco de sono aliviasse esse desconforto. Sorte que estava de férias! Tudo o que ela menos queria no momento era ter de acordar cedo na manhã seguinte e encarar qualquer aula entediante naquela escola maldita.
Na opinião de Ágata, não só a escola, mas toda a minúscula cidade interiorana, que sequer existia no mapa, estava repleta de gente fofoqueira, ignorante e falsa. Todas as amizades que tentara cultivar, sem sucesso, romperam-se de maneira rápida devido a índole interesseira das supostas amigas.
- São amigas da onça, isso sim! – dizia Vera Lúcia.
E Ágata era obrigada a concordar com a mãe. Por essas e outras que não seria tão ruim assim sair da cidade. Moraria num apartamento de verdade, numa cidade de verdade e estudaria numa escola de verdade. Aquilo era quase a perfeição.
Só sentiria falta de Guilherme, por quem sempre fora apaixonada e o melhor amigo que tinha no meio daquela gente, depois da mãe e da tia. Era a ele que confiava todo seu amor, sua amizade, sua confiança, indiscutivelmente. Deitou a cabeça no travesseiro, as lembranças do pesadelo invadiam sua mente, pareciam querer queimar seus miolos. Como queria poder dormir, poder inspirar um pouco da paz que emanava de seu quarto... Não podia ser pior do que o pesadelo.
Aí que ela se enganava. Esse era só o começo.

Oii !

Primeiramente quero agradecer a todos que se habilitam a perder tempo lendo as minhas histórias aqui! Também quero adiantar que a primeira história que eu vou postar é de minha própria autoria e já está escrita até o capítulo onze. Os primeiros capítulos são bem pequenos, mas vão aumentando com o tempo.Ah,se gostarem deixem comentários e sugestões, ok ?
Aliás eu ainda não dei um nome para essa história :p. Deixem algumas opiniões e me ajudem, tá ?

Beijos ♥